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sábado, 17 de julho de 2021

Julho de 2018, 3 anos

 - paiê, pq a gente come papá? 


- para ter energia.


- mas eu ja tenho. 


- mas ela acaba, oh... (e dá-lhe malabarismo para explicar com as mãos a energia sendo utilizada e recarregada). Se a energia acaba, a gente morre. 


- ah! E quem eh que mata a gente?


- ummm.... ninguém, a gente cresce, o tempo passa, passa, passa, e a gente vai embora. 


- umm, eh o lobo, o ladrão, o homem mau... 


- eh, a gente desaparece.


É mole? Três anos, fera. Hj falei sobre a morte, sobre a energia e sobre como estamos sobre um planeta que gira e por isso temos dia e noite. 


Que esta curiosidade nunca morra. 


Que ela possa ser saciada. 


Que o mundo lhe seja escola. 


E que, principalmente,  esse pedaço  de amor não desapareça jamais. Eh difícil, nessas horas, ser pai.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Na borda

 

Talvez seja intensidade, turbilhão, subjetividade, perspectiva, dor, alegria, vazio, unicidade, singularidade. Intensidade.

 

Mas pode ser possibilidade, estereótipo, determinismo, vestimenta, generalização, julgamento, superficialidade, cabresto. Alvo.

 

Implica em paciência, confiança, amparo, acolhimento, empatia, gentileza, cuidado, respeito. Se necessário, distância.

 

Respeito. Menos que isso não. A gente aprende. Demora, mas aprende. 

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Heróis invisíveis

 - Que música eh esta, papai? 

- Eh de heróis... - aponto com o dedo, silêncio.

- Quê? 

- Ouve - aponto a orelha, com calma.  

Pede colo. Se aninha no meu ombro. Ouve. Heróis invisíveis, um gari, um professor, um policial. 

"Essa gente que ignora tá salvando o mundo...". 

Tira cabecinha do meu ombro, me encara. Diz:

- Papai, vc já foi ignorado?- a mão em minha face.

O que dizer? Não era sobre mim, era sobre ser humano. E sobre ser humano ele fez ser. Sua compreensão o levou direto a se preocupar comigo, como se a ele fosse dada a incumbência de cuidar. 

Não disse nada. Silenciei. Dancei de leve, aninhei-o em meu ombro novamente. Ele não se aguentou, meio minuto me fita e busca me animar:

- Papai, eu me vejo nos teus olhos! - brinca, buscando meu olhar e achando graça de se refletir ali. 

 "Não filho. Sou eu que vejo através dos teus", a frase foi dita em silêncio, novamente. Através dos teus olhos a vida, pulsante, curiosa, potência pura, se apresenta. É. 

- Vai, q eu vou terminar a louça e depois jogamos - leva um tapa na bunda já no chão e sai rindo me provocando para ir pegá-lo. 

E eu vou mesmo. Sempre. 


terça-feira, 22 de junho de 2021

Adolescendo

 

O que fazer? Aproximar? Mas e se... Não, não dá! Ai, ai... Tão perto! Ah, o tempo! Timidez. Dança? Dança! 

 

Silêncio. Música. Toque. Ritmo. Cheiro. Toque.

 

Quantos anos tenho? 15?

 

Sorriso. Silêncio. Sorriso. No mais, deixo guardado. Há imensidões que se bastam em si. 

sábado, 22 de maio de 2021

Da arte do desenlace

 Dói. Ninguém falou que não doeria, mas precisava ser tanto? Dói lancinantemente.  Dói por A ou por B, se afasta ou aproxima. Dói, mesmo gentil; ainda mais, indiferente. Prometer é dar aquilo que não se tem, lhe ensinaram. Sim, e haveria beleza maior em optar por construir juntos todos os dias o que não se tem? Enfim, a dor que passe. Permaneço nos portos que me permitem atracar. Marujo velho, perdido no desenrrede de um peixe ou outro, ouve o mar sem precisar olhar em volta. Ele sente. O mar ondulando, quebrando em si mesmo, o Sol que lhe queima as mãos escuras, a brisa que se insinua como tarde de domingo, a moça indo embora.

Sua calmaria não diz tudo, irrompem batalhas ferozes dentro de si e estas não se mostram. Mas sabe desde guri que o mar serena no fundo, e as tempestades passam.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Quando eu for grande...

Lendo Cascão e a necessidade de dinheiro para uma invenção, ele me interrompe:


 - Papai, sabe quando eu crescer e for aquelas pessoas que criam regras...

- Ã... 

- Eu vou criar uma regra boa para todo mundo.

- Ã...

- Eu vou criar a regra que todas as coisas serão de graça, para todos do planeta, desse planeta aqui, ó - aponta para o chão. 

- Tá. Espero que logo vc se torne essa pessoa - sorrio. 

Pois ali meu pequeno herói universaliza o bem que pode e ou deve ser feito, se propõe como ator protagonista, legislador pensando em como melhorar o mundo, antecipa uma luta com o mundo que nós, adultos, sabemos ser real, doída, menos glamourosa.

Meu papel? Só pode ser ajudar este ser a não esmorecer, ensinar que ache seus caminhos, dar-lhe instrumentos para a empreitada, dizer "Vá!" e, se precisar, "Volte, descanse, amanhã vc tenta de novo".

Vamos tentando. A responsabilidade é grande. Nossa humanidade é pequenina, falha, errônea tantas vezes, mesquinha outras tantas. Mas nessas horas, talvez, ela também seja uma humanidade de entrega, de redenção, de uma eterna construção entre idas e vindas, dores e alegrias, abraços e despedidas, nós e o mundo nos moldando mutuamente sem receita universal, somente exercitando nossa liberdade perante tudo o q nos aflige, colhendo momentos presentes que nos garantem, talvez, a sensação de uma existência plena, ainda que na falta, na incompletude que nos assusta e espanta.

O que mais sobra a um pai? Sigamos. 




terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Rede

 Quarto escuro, ursinho Pimpão na trilha, voz desafinada de papai. Veio a terceira interrupção:


- Papai, vc eh amigo da tia Nico, neh?

- Sou sim, filho. 

- E ela tem outros amigos, neh?

- Sim. 

- Então todos estão juntos... 

- Acho que sim... 

Às vezes as palavras ditas pela fera se perdem. Há que se escrever ali, qdo saírem. Mas, dito isso, a ideia está ali. 


De onde surge? De uma cabecinha pensante q processa o mundo, e o lê de forma tão única. Não preciso entender. Eu só observo. E sorrio.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Matrix

 - Pai, nós somos o desenho animado de Deus? 

- Ah, podemos ser. Pq?

- Pq se ninguém vê ele e a gente tá dentro... 

Felipe, 5 anos

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Filtro dos sonhos

Para que vale um filtro de sonhos? Somente para aqueles que surgem durante o sono, ou poderia também lidar com os que sonhamos acordados? 


Pq essa leve chuva de verão que cai de um céu azul quase que num afago sobre a relva silenciosa do horizonte próximo... pq esse Sol que clareia o mundo transpassando pequenas nuvens nubladas com todo seu portento de forma carinhosa e total... pq esse silêncio que traz consigo um piado ou outro de pássaros aleatórios misturados com um ou outro latido longínquo de uma conversação inatingível para nossa mera humanidade...


Tudo isso cabe na categoria de sonho acordado, e perspassa este filtro e sua pluma azul para me tocar na alma, me socar na alma, fincar-se em minhas entranhas e clarear em mim o reflexo deste mundo tão meu. Desvelar este mundo em mim mesmo, pois o sou, estou nele e por ele, existo a partir dele e daquilo q provoca em mim. 


O que mais há para se filtrar? Lembranças rosáceas de uma face, alguns dedos que se entrelaçam, talvez. Vida que pulsa. 


:)

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

24 de setembro de 2013

 me apego em sonhos vazios?

me apego em mim, 

eu insubstancial que peca por inexistir. 

me encerro. 

me apego em âncoras profundas

velhos lobos do mar

donde sol e vento não se excluem. 


a maré é funda, mas não me leva. 

a maré é rebanho, seu moço... 

só rebanho.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Ponto de fuga

 Amor é estar seguro ao lado de alguém, se sentir seguro, ter um porto seguro. Ser este porto a outrem. Amor, portanto, se dá. Se dá quando se cuida, quando se acarinha, quando se ouve. Amor se dá no estar presente, não sempre, não de qualquer forma, mas quando se é necessário estar. E amor pode ter mão única, porque para se dar não é preciso receber. 


Um dia será de mão dupla. Será sem se pedir. Será sem se explicar. Será por escolha, escolha de cuidar, e isto implica em cuidar nas horas ruins também. 


Eu a amo, me diz a moça que me observa por ângulos que escondo do mundo. Ou, ao menos, posso ofertar este amor como outrora não pude. Mas isto não muda a realidade do que passou. Tão humano, tão dolorido. 


Há quem escolha deixar de amar, e é justo. Quem não se sente cuidado, por que haveria de cuidar? 


Há quem, no entanto, decida ainda se dar. E é justo também. Tem muito mais que lógica envolvido.


As consequências chegam de uma forma ou outra, corações mais endurecidos de um lado, sorrisos que se perdem no meio de uma lembrança e se apagam de outro; vontade de ar puro. 


Uma hora tudo passa, se assenta, se cala. E o futuro chega, num sorriso novo, numa voz que tem prazer em falar, numa alma que se deixa tocar. Que seja ela, num novo sorriso, numa nova entonação, de alma limpa. Ar puro. Se não for, que a vida preencha as lacunas. 


Amor se dá, enfim. Já o porque se dá, fica pra outra hora.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Essencial

 Conversando sobre um presente que não chegou e de como ele não poderia aproveitar a diversão (palavras dele, protestando), preparo o discurso:


- Filho, o que é importante pra gente viver? Aquilo que a gente não pode viver sem?


(engatilhado já para sua possível resposta que um carrinho de controle remoto não entraria nessa categoria)


- Umm.. comida (meu filho!), água... casa, papai e mamãe, e amor. 


Pronto. Até emendei a frase, "então podemos viver sem um carrinho, não?", mas nem precisava. 


O trabalho está sendo bem feito.

O que é meu...

 9 de set de 2019


Numa das longas conversas pós banho, papai diz a velha máxima de todos os pais (e nem por isso menos válida):


- Filho, o que eh meu eh teu... 




Então, duma criança de 4 anos, q-u-a-t-r-o anos, vem a resposta com um sorriso: 


- Até seu celular, papai? 


... 


Ele me pegou. Eu ri. 


- Até ele. Mas, como eh coisa de adulto, eh teu mas vc n pode usar. 


- Ahhhh, tá. 


Fico com medo de quando chegar nos 8. 


Hahahahahahah

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Em dia de chuva, Trovão

 


Na luz amarela e quentinha do aquecedor ele dorme. Sabendo que chove, pois chuva tem cheiro e tem som, ele se refugia em em seus sonhos caninos em campos longos e verdes, cheios de cães conhecidos e desconhecidos, onde pode correr à vontade do seu jeito travesso e serelepe. Me tem, quase certeza, também nesse sonho, como lugar para voltar quando se cansar, fugir de uma briga ou só dar um oi numa lambida rápida e uma caudada faceira. Desse mundo só dele um ronco ou fungado eventualmente acaba perspassando pra este mundo gris e molhado que é aqui fora. Eu, enternecido, cuido em silêncio, enquanto "aulas" de Ética (seja lá do que o gênio de plantão que gerencia minha rede queira chamar) se esquadrinham na tela do computador. O chá, o silêncio, a flor desabrochada na janela... e ele, deitado, sonhando, ser infantil e doce. Que alguma filosofia saia daí, ou ao menos contemplação. É um começo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Sociedade dos poetas mortos

 Cada turma que temos nos toca de um jeito ou outro. Acho que a dádiva em lecionar é não existir imparcialidade, objetividade, frieza; existe gente, que ri, canta, chora, briga, desbriga, ama, desama, afasta ou conforta. E são tantas histórias! Cada aluno com seu pequeno mundo, cada mundo tocando o outro em cada palavra, em cada gesto. Pequenos e ricos mundos de seres humaninhos se projetando no presente, potência se transformando em ato, vontade que rompe a inércia. 


Pois bem, meus queridos. Vocês, com seus mundos e sorrisos, tocaram a mim de forma única. O ano de 2019 não foi fácil para este humano com um pouco mais de experiência que sentou-se em nossa távola redonda. Mas lecionar para vocês me salvou, muitas vezes, meus caros cavaleiros. Sei que pode soar injusto, como poderia um professor depender de seus alunos? É ele quem deve ser fonte e morada do conhecimento que ali estão para aprender, não? Certo, impávido, sem defeitos ou falhas.  


Pois dependi, senhoritos e senhoritas, e toda minha humanidade esteve à mostra, minha finitude, minhas limitações, meus medos; a Filosofia voltou a ser vivida e não somente conceituada. Como poderia sentar à frente de vocês e ser menos do que fui? Não, me cativaram a dar o melhor que pude, ainda que tão longe dos ideais pelos quais me cobro. Não poderia ser menos paciente, cuidadoso, vívido, sincero com vocês.


Hoje, pós formatura, ainda tenho na memória seus rostinhos felizes recebendo o diploma. Só posso agradecer. Muito obrigado. Minhas tardes de quarta foram doces e leves. Espero que voem, meus queridos. Vocês podem tudo.


*Texto dedicado aos queridos formandos de 2019 da EMEF Senador Alberto Pasqualini, de Porto Alegre, por me propiciarem os momentos mais doces que um professor pode almejar.