segunda-feira, 29 de junho de 2015

Mia, meu gatinho

Há silêncio em seus passos, cada vez mais. Há a satisfação enrustida, a alegria no pequeno esforço. Há, para quem se importa, e todos os outros são folhas caindo numa caminhada outonal, fria e clara. São poucos aqueles para quem há alguma coisa deste homem. Não é, nem de longe, o grito devastador juvenil de outrora. É voz suave, mas firme, que percorre verdades com a facilidade de relativizá-las sem se importar muito. São poucas as verdades que importam. Somente com elas há de ser perder o tempo. 

Há um amor, sem igual, sem medida e sem opção. Há uma pequena vida, pedacinho de carne que sorri por miados e chora cantando. Tudo agora parece perene demais para que se tranque em portas inabríveis, postura tão comum quando jovem. Existe somente uma porta, e estar fora é já coisa impossível. Mia, gatinho, mia e sorri este sorriso desdentado e fofo, esticando o pescocinho para descobrir além-mãe, com estes olhinhos arregalados de quem tudo quer saber. 

Pois você tudo pode. Esta é a dádiva que tens pela frente, e ela é tão bela! Vai, e sê o que puder ser, suga deste mundo sua essência, ama a vida e vê nela toda a alegria e dor em ser o que somos. Que teus miados acariciem mais pra frente os ouvidos velhos de um velho pai.

domingo, 10 de maio de 2015

É dia de mães

Hoje é dia das mães. É motivo para escrever, pois é meu primeiro dia das mães como pai, numa sensação de dia das mães diferentes de tantas outras que já vivi nesses vinte e tantos anos. Geralmente, não valorizo muito datas como essa. Fico naquele grupo pequenino e chato dos que acham todos os dias cabíveis de comemoração, contrariando o senso comum cultivado por propagandas e afins. Há um dia de pai e mãe em cada dia, a cada minuto de vivência com a cria. Assim como espírito natalino e páscoa deveriam permanecer por mais tempo em nossas mentes e menos tempo em nossos bolsos.

Isso não faz de mim, ao menos espero, um pecador maldito que odeia mães, pais, símbolos cristãos e por aí vai. Só alguém que ignora o apelo midiático dessas datas e que, por isso, pode passar por indiferente. Faço o mea culpa depois de descobrir não da melhor forma que um "feliz dia da mulher!" se fazia necessário à minha pequena naquele fatídico dia, e nem todas as explicações de que era o dia de minha mulher todos aqueles em que estivesse ao meu lado adiantaram. 

Prefiro comemorar aniversários, sua ilação com uma mercadoria qualquer é feita a posteriori, nenhuma loja de presentes tem a prerrogativa sobre um nascimento. Ainda aí, poderíamos alegar que se comemora a cada dia de vida um aniversário, e então os minutos, e então... conheces o significado de infinitesimal? Iríamos por aí. Mas há outra vantagem em aniversários: sua singularidade. Dificilmente pessoas amadas e importantes para nós aniversariam no mesmo dia, então não preciso me preocupar com o gênero "aniversariantes" quando dirigir alguma palavra de carinho a elas. 

Ainda sim, é dia das mães, e sobre mães é que escrevo agora, ainda que me desmintam os parágrafos anteriores. 

Escrevo sobre Teresas e Karens,  e todas as suas possibilidades. Sobre a dor do parto, a coragem necessária, a força que supera qualquer homem. Escrevo sobre o amamentar madrugador, as horas de insônia e o braço forte que sustenta o filho. Escrevo para contar de relance o amor incondicional de alguém para outrem, sussurrado em canções de ninar por timbres docemente cansados. Escrevo para dizer que há sorrisos fáceis no mundo, e sorrisos simplesmente necessários, em todo o grau filosófico que necessidade implica. Escrevo para contar ao mundo que um toque daquela mãozinha do peito que a amamenta é uma das cenas mais doces que um ser humano pode ver, e que seus olhares trocados comovem até o mais fingidor dos homens. 

Não é por fogões que escrevo, tampouco fritadeiras elétricas de tantas e tantas funcionalidades. É tamanha a falta de poesia nesse mundo que nossa alma se apequena ao que se vende, a felicidade arduamente comprada em sacolas e carnês, a gente brincando nesse simulacro de felicidade. É tamanha a falta que nem conseguimos dizer com certeza o que nos poderia preencher, e de poço fundo e curtido passamos a riacho raso e efêmero. 

Mas não posso ser efêmero ao falar de mãe. Não, não de minhas mães, que começam com Izolindas e Marias, perpassam por Noêmias e Luzias, desembocam em Lígias e Larissas.  Seria pecado mercantilizar todas elas, e tudo o que há por trás de todas elas, e tudo o que há por dentro. 

Prefiro falar sobre essa essência misteriosa contida em minhas mães queridas, uma inebriante sensação de calor e aconchego cantada como campos dourados de trigo numa primavera amena, o Sol a tocar nossa face aquecendo da pele à alma, e a frescura da terra deslizando entre dedos descalços. Antes, falemos de menino chorão e manhoso, que reduzia todo o ímpeto (e este foi grande) ao toque e olhar de Teresa, e suas palavras que emolduraram um caráter. E como não imaginar a brandura necessária para três filhos, três flores de cores e tamanhos distintos, mas que ao fim emanam o mesmo perfume?

Preciso, mesmo, é dizer que as amo. Que hoje é pai quem já foi filho, e ao filho tudo o que aprendeu passará. Preciso dizer que, das flores novas semeadas pelo vento, uma encontrou morada em minha pequena, a gigante que carrega tanto em seus ombros; que não poderia achar terra mais fértil, o pequeno; que é amado sem a necessidade de uma palavra sequer, e sua comunhão com ela será eterna. 

É dia de mães. Sempre será.







terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Sobre algo que talvez um dia conversemos

Teus cabelos serão castanhos, como teus olhos. Tua boca será pequenina e teu nariz arrebitado. A pele branca puxada para o amarelo e bochechas rosas, teu tamanho dois palmos meus. Teus dedinhos enredarão os meus, um por vez, pequeninos que serão. E teus pés não passarão de mobiles para aguçar os sentidos.  Este é você, Felipe, no pouco que te concebo.

É pouco, eu sei, e provavelmente errôneo. Mas não cabe a mim delimitações profundas. Deixemos a Natureza fazer seu papel, interpretado com maestria até agora. Não é com tanta satisfação que tua mãe recebe os chutes abaixo da costela com que sinalizas tua vontade de vida, veja bem. Mas ela aguenta, é forte, e esses chutinhos nos dizem que estás bem. Por ora é suficiente.

Apesar de pouco, a imagem que me vem à mente já é todo um mundo em mim, novas categorias de ser que se preparam para que, chegando, lhes confira significado. Não é, no entanto, teu físico que me preocupa. Tua alma, esta sim, será foco de minhas atenções. E prevejo muito trabalho. É aí que precisaremos construir um ser humano, lapidar entre inúmeras experiências um homem, fazer desta matéria prima um ente apto à felicidade. 

Claro que para isso precisaremos conversar sobre o que é ser humano, do que se faz um homem e por que a felicidade é um ideal tão longínquo de nosso dia a dia. Não te preocupes com receitas prontas, tudo será construído em comunhão entre nós. Se há uma verdade que insistirei para que acredites é que a verdade é construída, e nada deves aceitar como tal sem antes pensar por si próprio: comungar com o mundo e o receber, ressignificar e atuar sobre ele, sendo tu a medida de todas as coisas. 

Entendes o tamanho disto? Sermos nós a medida do mundo é tarefa difícil, dolorida, pois implica em medir em nós mesmos a dor dos outros. Se apropriar do mundo é tomar consciência de todas as suas facetas, inclusive as más; é perceber que somos incompletos, finitos e egoístas; que o valor do outro é relativo e que a vida pode ser sagrada a uns e descartável a outros - e com estes, também dividirás a mesa. "Mundo mundo, vasto mundo"... Por sorte, Felipe, sempre haverá a poesia para nos ludibriarmos desta tarefa inglória que é se fazer humano. 

Mas não te desesperes, não ainda. Tua humanidade só aumentará neste processo, e eu estarei à sombra para esconder o teu rosto se precisares. Não há heróis, filho. Surge a compaixão da consciência de nossa finitude, e é aí o campo mais profícuo para uma alma florir. Para tua alma florir. Dará trabalho, mas este é um compromisso do qual é impossível me furtar. Estarei contigo. 

Portanto, independentemente da cor dos teus olhos ou do tamanho dos teus sonhos, aqui estou eu, agora e para sempre, para dizer: "Seja bem vindo!". Venha logo, que esse mundo será teu.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Sobre um menino que escreve (ou deixa de escrever)

É possível perder a escrita? Traduzir o mundo através de palavras foi algo que sempre gostei, ainda mais quando descobri que música seria uma habilidade a ser muito trabalhada para render por aqui algum fruto bom. No entanto, há muito não escrevo, e escrevendo agora talvez me venham respostas. 

Não creio ser possível perder a capacidade de expressão através da escrita. Poderia dizer a capacidade de "escrever", veja bem... sintoma de explicação da explicação necessária ao meu fazer diário com adolescentes? Pode ser. E o texto vai se construindo com devaneios, menos do que sua ideia central desenvolvida. 

Devaneando, seguimos. Ter a capacidade de escrever nunca implicou em bons textos, assim como uma Ferrari nada seria nas mãos de pilotos inaptos. Essa capacidade depende muito mais dos olhos que veem o mundo do que das mãos que o reproduzem, e por olhos entendo todos os sentidos possíveis para se vivenciar este mundão afora aqui de dentro, daquilo que chamamos consciência. Se esta é a primeira hipótese, suas implicações não me são agradáveis. Ora, o piloto inapto sou eu, com meu olhar entorpecido por cotidianices várias, deixando a máquina num lento processo de enferrujamento. Meus olhos deixaram de ver o mundo? Ou se adaptaram para enxergar partes dele? Ambas as possibilidades são problemáticas.

Não posso ter deixado de ver o mundo, não agora, não assim. Vejo em meu dia a dia minha esposa, essa pequena de textos antigos, que está ao meu lado agora e me faz feliz. Junto a ela, uma vida que se desembrulha como uma flor na primavera, um universo de possibilidades que serão guiadas em parte por mim, um projeto de homem que agora é minha responsabilidade executar (e que, executado, entenda que não há projetos). Não o tenho ainda em mãos, mas pensar nele me toca tão profundamente, num misto de surpresa, angústia, alegria, ansiedade... e sei que, ao tocá-lo, me apaixonarei de tal forma que todas as palavras do mundo serão necessárias, talvez mais, até que gerem o silêncio do não dito. Para fechar o quadro, uma cachorrinha muito querida, minha casa e meu trabalho, todos motivos de alegrias pequeninas e translúcidas, que me dariam textos e mais textos num passado recente.

Não posso ter deixado de ver o mundo pois o vejo cada vez mais em meus alunos. Se é lorota que alguém tem dom para professorar, é fato aprendido nestes poucos anos lecionando que lecionar é uma arte; construída, sofregamente construída. E que, como toda arte, há o artista e a obra, numa relação íntima de construção mútua, na qual o mundo se expressa, de um jeito ou outro. E, meus amigos, digo que não vejo o mundo, vejo inúmeros, a cada dia com estas ferinhas que, adolescendo, mudam suas possibilidades futuras a cada texto lido, a cada ideia discutida, a cada conversa sobre as necessidades da vida. Onde há pobreza nisto?

Portanto, deixemos a hipótese da cegueira e passemos à de uma cegueira seletiva. Vejo hoje o que quero ver? Tão absoluto assim, coisa de gente bem resolvida, dono dos caminhos e dos tempos? Nem a pau. Vejo seletivamente, sim, mas mais pela incapacidade de lidar com a riqueza que me cerca do que com a possibilidade de lidar com tudo. E meu primeiro culpado para tal quadro é, se respondesse de relance, os supracitados alunos e sua demanda para meu espírito. Se um dia você ouvir que dar aula cansa, suga, esgota, não pense maledicências do pobre professor que se lamuria. Veja mais como um pedido de reconhecimento por parte de alguém que te considera importante ao ponto de fazê-lo, reconhecimento por um trabalho hercúleo omisso das mídias, manchetes e grandes fazeres da república do "você sabe quem sou eu?". Há dias em que chego do trabalho e toda beleza possível presente no mundo é para mim nada mais do que uma boa noite de sono, com banho ou sem, para desespero de minha companheira. Nesses dias, lidar com trinta pessoinhas a cada hora e meia imbuído de lhes dar alguma formação é mais do que uma mente de poeta poderia processar; o que é necessário é mente de proletário, operário da linha de produção, que vê na repetição e na atenção a tarefas básicas toda a beleza que precisa. 

Mas não se resume somente a isto. Poderia apontar também o não escrever como fruto de um amadurecimento, tangendo a insensibilidade para as coisas, e aí tenho minhas dores guardadas que somente a mim me cabem. Onde está meu mestrado? Onde está minha família? Onde estão meus amigos? Ainda há coisas para as quais preciso pedir perdão, um perdão diferente, do qual sou o suplicante e executor. Seria para fugir desses demônios internos que parei de escrever? Minha alma sempre vem à tona, ou ao menos beira a superfície de meus textos. Quando isto passou a ser tão ruim, talvez eu não queira descobrir. Porque descobrir é me contextualizar em quadros que falharam e que não deveriam, e é retornar ao discurso do dever ser, como se o poder ser que hoje vivo fosse inferior de certa forma. Sou quem deveria ser? Cada vez mais proletário, cada vez mais afastado de uma vida acadêmica, criando meu filho longe de meu ninho. Para que lembrar disso tudo? Ser proletário me humanizou, o afastamento da vida acadêmica me deu estas crianças e estes colegas que fazem da água um vinho em sala de aula, e estar longe do ninho me fez crescer tão rápido  que me surpreendo, eu, o inseguro moleque apaixonado do interior. 

E a alma vem emergindo... vou por aí. Mas não hoje. Acho que já achei algumas respostas.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Goleiro

Ele tem 10 anos, "quase 11", segundo ele mesmo. É pequeno como se oito tivesse. O cabelo moicano loiro é usado desde o começo do ano, senão mais. Não esconde a falha de uma cicatriz, marca de guerra de algum jogo imemorial no campinho ao lado - me permitam, leitores, devaneios. Seu traje cotidiano mostra a quem tiver olhos sua identidade secreta: calças sob as meias, tênis baixo e camisa de manga. Não há pelada para a qual ele não esteja preparado.

Ultimamente tem jogado todos os dias na quadra da escola, após o almoço. Não tem luvas, "alguém estragou". O grau de desinteresse da resposta me indica que nunca houveram luvas por ali, esses penduricalhos desnecessários ao exercício da profissão importantes somente para professores velhos e que nunca pegaram no gol. Goleiro bom pega na raça, bola de capotão ou de borracha, mão vermelha é sinal de trabalho bem feito. 

A voz fina, de criança, aproveita os ataques do time para incentivar o time e guiá-lo, maestro que tudo vê. Os passinhos dados à entrada da área rapidamente voltam mirando o centro do gol se ameaçam um contra-ataque. Num desses intervalos ele se vira e me diz, sorridente, que "quando a bola rebate mata o goleiro, pissor". Acompanha a fala um gesto com as mãos em direção ao travessão que ainda não alcança. Num arroubo para completar o movimento, pula, sem novamente alcançar, demonstrando didaticamente o ponto fraco usado pela sorte dos adversários para passar por ele. 

"Tem vindo ao treino?"

"Não fessor, tava machucado... mas semana que vem vou vir!"

Mais uma daquelas respostas que me colocam em dúvida. Há no tom sincero e ingênuo uma despreocupação total em relação à preocupação do adulto. Treinar não é brincar, não tem portanto importância prática. Os olhos dividem a visão com o professor atrás do alambrado e o jogo que se desenrola. Sai o primeiro gol, e mais uma vez aquele sorriso se vira e recita ao mundo: "já foi o primeiro, já foi o primeiro!"

Não leva muito e uma entregada do zagueiro faz nosso pequeno defensor ser vazado. "Que que é isso zagueirão, recuar na área com marcação em cima? Chuta pra fora, pô!" - esse sou eu, já envolvido pelo espetáculo desordenado de cultivo futebolístico. Não deu outra: bola no ângulo direito, lá onde nosso herói não alcança, apesar do belo salto e da queda macia. Injustiça dos deuses do crescimento, blasfêmia do santo protetor dos atacantes!

Mas o pequeno crescerá, e alcançará um dia todas as partes da meta. Altura agora não importa. Ele já é um goleiro, faz parte de sua identidade. Ninguém que não seja um goleiro pede para jogar no gol logo na escolha dos times, isso é a lei mais óbvia conhecida pela molecada de todos os tempos. Que não perca esta criança o brilho no olhar e o sorriso que agora cultiva ao voar nos pés dos adversários de modo feroz. Estaremos aqui, zelando, observando e admirando. Essa é a nossa profissão. 


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

João Pacífico

João Pacífico é o autor de músicas como Mourão da Porteira, Chico Mulato e Cabocla Teresa. Essas músicas ficaram famosas nas vozes de vários intérpretes. No entanto, ouvi agora pela primeira vez o próprio João cantando e, confesso, me emocionei.

Sinto saudade de um tempo que não é meu. Já o dissera antes. Mas esta sensação de inebriamento, que irrompe da voz seresteira e me arrasta a sonhos sobre vidas que não vivi, a não ser como traços de cultura que me formaram desde pequeno na figura de meu pai e meu avô, é uma sensação que não canso de dividir.

Digo que é terra vermelha o chão em que piso, ainda que na arenosa Porto Alegre rumine meus passos; é o Sol do cafezal que cora meu corpo, mesmo que em mim não pese o trabalho da enxada. Ressoa, em tudo o que faço, canções como as de João, palavras como as de meu avô, o jeito de ser que aprendi a ter com meu velho. 

Para quem gosta de música de raiz, vale perder um tempinho ouvindo:    :)


sexta-feira, 12 de julho de 2013

É como vinho

Minha guitarra elétrica não veio comigo. Em verdade, nem a tenho. Os quilos da bagagem não excedem o limite desta vez. Sorte que não pesam o passageiro. 


Deixo por momentos essa vida que é minha, e retorno ao ninho que já é de outrem. Mas são só falsetes maquiados de categorias sérias. A vida minha é por onde passo, e passam por mim. 


Ficam as glórias e os pesares suspensos na poeira decaindo lentamente, duas semanas e se assentam, e tornam a se levantar no frenesi que ultimamente me consome. 


Mas são só projeções. A que tenho em primeiro plano é dormir na velha cama, da velha casa, dos velhos pais, das velhas irmãs, dos velhos amigos, dos velhos lugares, da velha vida. 


É como vinho. 


segunda-feira, 11 de março de 2013

Ah, o meio termo....

No começo exigia demais. Sartre textual. Professor inapto. 


Decaí para a não filosofia. A crise de sentido. A falta de significado. Adolescentes com problemas existenciais, com certeza. Não necessariamente, no entanto, eurocêntricos. Some-se um nível de leitura inadequado para o que aprendemos ser a filosofia na academia. 

Resultado: fracasso. 


Felizmente, de tanto decair algo se construiu. Crianças são curiosas, filosofia nasce da curiosidade, faça o link, seu merda. 


E to eu aqui, brincando de filosofia com meus alunos. E tá indo, manolo. O inadequado, no fundo, era eu, com meu ranço academicista. 


Meio termo. Capacidade de reconstruir. E paciência, muita. Principalmente consigo mesmo. Isso não me ensinaram na faculdade. 

O médico e o monstro

Há que ser. Meio médico, de alma, quase sempre. Médico de fino trato com os pacientes, uma sutileza num gesto ou fala aconchega e ganha mais do que horas de explicação bem intencionada (e, às vezes, inútil). Meio monstro, numa razão necessariamente pequena - medida ideal. Que a fúria não seja despertada, que os sermões fiquem adormecidos, que os recreios permaneçam fora de sala. Pois aí a dose do remédio é na jugular. E machuca. 


Achar o caminho eficaz entre essas duas personalidades é o lance. Sem receita. Só deixar fluir. Aguentar os baques. Uma hora tudo começa a parecer natural, o esgotamento é menor, a taxa de retorno da tal felicidade em lecionar, maior. E aqueles que antes não ficavam quietos, passam a ficar. Deixa de ser necessário se esconder à frente do quadro com medo do silêncio de estar à mesa sentado. Falsa dominação, ilusória sensação de controle. 


Quando o monstro é bem gerenciado, o médico geralmente consegue trabalhar. Aí, ninguém segura. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Passagem

Ela pegou sua trena e partiu. Medidas e medidas mais tarde, uma planta baixa se materializa sob meus olhos. Profusão de sensações, desde ansiedade até esgotamento. Isso é casa nova.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Romantizemos...

Há verdade nos olhares e na falta deles. Há sempre verdade nos olhares, ainda que se desviem (eis as piores). 

Há os olhares que se desviam por negar o espelho. Há quem siga os espelhos de outros. Há aqueles que em seu olhar resplandece opaca a manada. E nestes olhares também há verdade. 

Há verdade na busca e em sua dor, que gera vozes e silêncios.

 Onde há mais verdade? Na mentira contada verdadeiramente ou na verdade omitida mentirosamente?

Há verdade em cada ser que se debate com sua própria existência sem motivo e na agitação centrífuga que geram no lago. 

Há verdade, infelizmente, nos olhares que percebem motivos onde não se tem. Onde a construção de um sentido se forja pela aceitação, não pela dor da procura. 

Bom, no fim é tudo construção, dos gênios aos medíocres. Há verdades em todos eles. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Atestado de ilusão - maringá salva, maringá edifica, maringá é jesuis


Ai ai ai... aniversário e fim de ano, batendo um papo com a tia professora, o negócio de ser professor pega de volta. E comparando contextos, sinto um sentimento de vazio. Vejo como a figura do professor no contexto em que eu trabalho se ilude sobre o trabalho que faz. Como se pudéssemos nos esconder em risos e relações da realidade kafkiana que nos aflige diariamente: os alunos que não aprendem, a escola que não funciona, o conselho tutelar que não atende, a psicopedagoga que não existe, a biometria que não é substituída por um professor da mesma área, o analfabetismo funcional de metade dos alunos... 

puts, é bom relembrar disso. deixar bem marcado para mim mesmo que participo desta merda toda. saber em que há lugares em que se ensina e se resolvem problemas. Em que a Secretaria de educação não dá canetaço e sim contrata professores específicos para alunos de inclusão, ou onde o mais educação tem professores especialistas envolvidos. 

É bom, nesta data de passagem, saber que pais sofrem processos por um aluno não ir à escola, que alunos não faltam aos laboratórios e que uma retenção é algo grave, pois vários outros caminhos já RESOLVERAM o problema. É muito bom saber que quando falo em reuniões de professores que aquele padrão é algo inaceitável e que precisamos mudar de forma ampla (buscar mudanças em conjunto, pois não tenho receita) não está em minha mente um sonho, como tantos insistem em desdenhar, e sim uma realidade que somente um bairrismo estúpido não consegue perceber. 

Para quem ler este post, a pergunta (bem intencionada ou não) seria: pq não te mudas? Pq ficar tentando resolver problemas de um sistema que apodrece? Pq bancar o pseudo herói e voltar para essa realidade sem guia, sem líder, sem gente que dê jeito? Pelo desafio? Pelo salário? 

E minha resposta seria: bom, são perguntas sem respostas. 

A única coisa certa é que analfabeto funcional em nono ano é atestado de ilusão para professores anestesiados. Deus me livre de ser um deles.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Eu só queria...

que meus alunos soubessem expressar por eles mesmos suas opiniões. Soubessem ler adequadamente um texto. Soubessem escrever adequadamente, tivessem domínios de certos paradigmas da linguagem escrita que lhes permitisse dizer o que pensam (pois eles pensam). 


Mas a cada trabalho que vejo e corrijo noto o quanto a formação é falha. De cada dez, um se salva. E aí surgem os relativismos, o discurso do coitadinho, o contexto familiar complicado, a falta de estrutura (de salário é que não é), a metralhadora giratória na sala dos professores reclamando e reclamando de como é complicado ensinar. O que mais me deixa puto, desses itens aí, é o tal do relativismo... "cada um tem o seu ritmo", "cada um faz o que dá", "não dá para exigir dos alunos coisas muito complicadas"...


Pelo amor de Deus, ler e escrever não são tarefas complicadas e deveriam ser dominadas minimamente nos primeiros anos de alfabetização. Que se refine as técnicas com o passar dos anos, fujamos deste quadro: o que se está pedindo dos professores dos anos finais é milagre via produção em massa. E explico os motivos: português é ensinado pelos professores de português, matemática pelos de matemática, alfabetização pelos alfabetizadores. Eu, como nenhum professor dito especialista, tenho formação para lidar com assuntos distintos de minha área. Isto não é dizer que nos omitimos, que fazemos corpo mole, que jogamos a culpa nos outros. Isto é ter honestidade intelectual para admitir que ensinar lida com objetos vários e que, para cada objeto, são necessários instrumentos pedagógicos vários, e que, para cada conjunto de objeto/instrumentos pedagógicos é necessária uma formação específica. 


Ora, ensinar é complicado? Eu também acho. Muito complicado. Olho para esta mesa de trabalho e me pergunto como estes alunos chegaram até aqui e o que eu posso ensinar a eles. E, mais importante, como teremos coragem de mandá-los embora nestas condições. Me dói o coração não saber ensiná-los o que de fato precisam, e meu primeiro impulso é jogar ao lixo o pouco que construí durante estes dois anos em sala de aula e ficar fazendo redação atrás de redação.  


 O problema, puta que pariu, é que eu não tenho a tal formação para lidar com isso, não é minha responsa, fraga? Por mais que eu quisesse e fosse irresponsável o suficiente para tentar, eu simplesmente não sei como. Faço o máximo possível para ensinar um pouco do filosofar para estes jovens, e até suprimo a necessidade de lidar com textos filosóficos, focando, ao invés disso, em problemas diversos referentes à filosofia com linguagens diversas. O que não dá é fazer o que não sei, ensinar  a ler e escrever. Para isso tive ótimas professoras de português, que estudaram para isso, se formaram e se lapidaram com a prática deste objeto específico. As professoras citadas me deram instrumentos para poder cursar um ensino fundamental decente, um médio decente e entrar numa faculdade. Detalhe: faculdade de Filosofia, com f maiúsculo mesmo, e não Pedagogia ou Português. 


Bom, daí chegam os conselhos de classe (os finais são os mais emblemáticos) e discussões intermináveis sobre cada aluno vão além de toda especulação metafísica já fabricada pelos antigos. Os comportamentos inadequados, as aberrações em sala de aula, o grau baixíssimo de cada um, fala-se de tudo, menos da causa dos problemas. Quando começa a ficar bom, ou seja, já não há a mínima objetividade para lidar com o sistema (afinal precisamos nos manter sãos), começamos a devanear, contar piadas, usar metáforas jurídicas nos colocando como acusadores (quando deveríamos ser os defensores) ou contemporizar com a situação. 

Resumindo, somos um bando de perdidos, tão perdidos como nossos alunos. Perdidos num sistema educacional que nos condena, a nós e a eles, a uma relação incestuosa onde o que menos vale é a aprendizagem. Fracasso escolar, é o que estampa nossa realidade cotidiana. E não há festa, não há interação social, não há cafezinho que resolva a parada. É isso aí. Deixe eu terminar minhas correções e continuar a tomar minha dose de surrealismo diário. 






terça-feira, 6 de novembro de 2012

E assim caminha minha sexta série...



Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco"
e os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite,
uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante,
desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então! 



Pablo Neruda

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Procura-se assassino

As autoridades procuram desde ontem assassino não confesso nas imediações das escolas do bairro. A família da alvejada, dona Curiosidade, prestou queixa nos altos tribunais criativos do Ministério das Utopias e Sonhos Distantes na tarde de ontem. Relatou a família que se tratou de morte premeditada e executada em pequenas doses. “Não descarta-se autoria coletiva”, afirmou o delegado do caso, Dr. Sócrates da Silva. O suspeito tem entre vinte e sessenta anos, de sexo indefinido, sabida inteligência (devidamente dogmatizada), hábitos incólumes e refratário a trabalhos árduos. Seus métodos foram estabelecidos já no início da investigação. Opera através do tédio, da acomodação e da resignação. Críticas à estrutura e apontamentos pontuais sobre impossibilidades foram encontradas jogadas num beco sem saída, e aparentemente são as armas do crime. O local do fatídico acontecimento é indefinido, mas há relatos de civis apontando para os jardins e floriculturas da cidade. “Fato que nos leva a seguir tal indício é o clima de medo e consternação apresentado pelas flores de alguns estabelecimentos”, esclareceu o investigador Antônio Ombros Largos. Nossa equipe levantou que flores de várias idades demonstram transtornos decorrentes do assassinato, desde comportamentos considerados impróprios à apatia nos momentos de desabroche. A investigação prosseguirá nas próximas semanas em sigilo de justiça, conforme determinado pelo Excelentíssimo Juiz de Primeira Instância da Ordem dos Formadores de Opinião e Cerceamento de Pensamento, Dr. Não Sei Eu de Nada. O Ministério do Interesse Público avalia entrar com uma petição para derrubar a medida, mas especialistas avaliam como difícil a reforma da decisão pelo Excelentíssimo Juiz de Segunda Instância, Dr. Não É Comigo. Aguardaremos os próximos fatos.