Da janela de meu quarto
Via o longe morro, morro longe,
equidistante da sensação de mim e do céu azul que lhe cortava.
Numa noite fria
as luzes piscavam e acendiam em mim o sentimento da metrópole formigueira.
Morro longe, formigueiro.
Doce ilusão de beleza
Eu da janela do quarto, enquadrando toda a vista.
Hoje subi no morro
e não sou eu quem o olha:
ele de cima me vê, e todo o resto.
Resto de imensidão
palavreado geográfico, estende-se por mar além.
De cima do morro todo o resto é mar.
segunda-feira, 19 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
Danuta
Ela sorri, com sua blusa branca, e encanta meu dia e noite. Ela sorri, e por trás do sorriso claridade. Ela sorri, e sua voz terna é meu melhor remédio. Ela sorri, mesmo quando chora, porque os fardos fazem do sorriso maior valor. Ela sorri ao meu lado, e do outro lado da linha, e de quantos forem os lados que são possíveis no mundo. Ela sorri, e a única coisa que me cabe é deixar ser assim, num sorriso de longos tempos.
Se compreensão é chave, o sorriso é a porta a ser aberta. Ele invade os momentos e os faz perdurarem, torna cúmplices os que não são, absolutos os surdos de coração. Ah, sorrindo assim você me enlaçaria mesmo em outro mundo - e há justiça nisto, impor a outrem passionalidades diversas? Passei pelo tórrido verão da juventude apaixonado, tornei casulo no inverno branco cinza que se seguiu. Mas o branco é o branco de sua blusa, e do cinza seu sorriso me despertou. A primavera, consigo ao meu lado, é agora.
Ser humano se forja na dor. E a forja, se boa, reluz ao Sol... como um sorriso.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Vai, Pedro!
Vai, e dê ao seu professor de filosofia mais um motivo de orgulho. Te espero daqui a quatro anos entrando na Ufrgs.
:p
:p
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
"Não cumpra!"
Férias é...
- acordar a hora que eu quiser, mesmo não querendo em muitas e muitas vezes;
- ter o café do pai pronto na mesa e o almoço da mãe pra rangar;
- contemplar o ócio sentado numa cadeira de área em frente à pracinha;
- deitar na rede da varanda e ver a chuva cair gostosa;
- esquecer que há uma realidade de semiletrados aos quais devo atender quando retornar à porto alegre;
- esquecer que filosofia para jovens semiletrados é um vão esforço, e que a curiosidade natural deles poderia muito bem ser aproveitada por uma boa professora de português e matemática;
- poder ia ao cinema com a irmã, namorada e irmão, se ele me permite chamá-lo assim;
- poder jogar papo fora com meu avô; e com minhas avós;
- perceber que a cidade em que nasci é bonita pra caralho, e que se tivesse mais opções culturais seria perfeita;
- curtir uma piscina e sauna com o velho;
- dar um rolê na uem com o yuki;
- tomar um téres bem gelado e sem açucar com o tomate e o doni.
enfim, férias é massa, to em casa. como é que querem que eu desça meus padrões do que é a vida, tendo tudo isso aqui, para a realidade da restinga? é complicado. tráfico de drogas, mortes, tiros, escola cadeia... pais e mães com quinze anos, filhos mal educados e formados, perspectivas limitadas.... há uma cultura institucionalizada, arraigada, que influencia aquela comunidade. e é uma cultura que contamina os sonhos dos jovens que atendo. falar em universidade ali é piada. e é contra essa estrutura que tenho que lutar? é vivenciando este cotidiano que criarei meus filhos, estando maringá à minha porta?
por enquanto, deixo a resposta pra depois. estou de férias.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Notas esportivas 2011
Hoje foi um dia memorável para os amantes do bom futebol. O AGP, depois de um ano de preparações individuais, entrou novamente em campo e não decepcionou. Num embate épico com a C32, a Associação Galática dos Professores do Dolores Caldas goleou por 13 a 4, demonstrando que a derrota na partida anterior fora apenas casual. Atuações magistrais do ponta esquerda Max, artilheiro do encontro com 5 gols, e do cabeça de área Joaquim, seguro como uma rocha na cobertura da defesa. Menção honrosa merecida ao meia-atacante Juliano, mais conhecido como Juju, pela cadência que imprimiu ao meio campo galático. Ed pedalada dispensa comentários, os presentes em campo hoje puderam comprovar a similaridade de seu jogo com o do velho e bom Garrincha: enfático, mas belo; ameaçador, mas alegre; rápido, mas gracioso. Completaram o time o ala direito Wágner, que demonstrou plena integração ao conjunto, e o goleiro Marco, apontado pela crítica esportiva como possível goleiro brasileiro em 2014.
Com relação à partida, uma marcação pressão adiantando as linhas defensivas por parte do AGP sufocou completamente a saída de bola adversária. Um dos expectadores presentes chegou a aludir ao velho Carrossel, no que não estava no todo errado. Imbuídos do espírito acadêmico que transpassava o grande alvi-verde de Ademir da Guia, o AGP logo abriu o placar com Joaquim, se aproveitando da paralisia adversária causada pela marcação pressão. E como onde passa boi, passa boiada, mais douze vezes as redes adversárias foram balançadas. Seria mais não fosse o pequeno e ágil Douglas, defensor da meta adversária: "Esse piá, com o treinamento certo, pode vir a me superar", elogiou o ás das defesas impossíveis Marco Aurélio. Mas para desespero da torcida Cetrintista, o jogo dos jovens campeões da oitava série não se encaixou como em seus melhores dias. Se, por um lado, poderíamos alegar o azar de jogarem com um time de qualidade transcendente e em plena forma, por outro não se poderia deixar de apontar a sorte de seus quatro tentos marcados.
E, dado a aula de futebol que fora apresentada nesta manhã, o AGP decidiu pedir vistas aos que, de forma leviana, se denominam mestres da bola. É com galhardia que fica expresso aqui o convite ao FC Barcelona para um jogo amistoso em terras porto alegrenses, se coragem houver do outro lado. Como bem incorporara o capitão Joaquim, "No campo deles, talvez, até segurariam um empate... mas no nosso?! É nossa, com certeza". O desafio está lançado.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Pedido à zerohora
Mandei à editora de educação da Zero Hora. Procurarei outros veículos, se possível. Se ano que vem é ano de eleição, há que se começar a discutir se é esta educação a que queremos para nossos filhos. Para os meus, com certeza, não.
Boa noite,
Gostaria de sugerir uma reportagem investigativa sobre os procedimentos da Secretaria de Educação de Porto Alegre no que se refere ao avanço dos alunos para séries posteriores nas escolas municipais. Sou professor na rede a pouco mais de um ano e já pela segunda vez constato o mesmo movimento: argumentando que o regime é ciclado, há quase que uma aprovação automática imposta por coordenadoras da Secretaria de Educação. Fazemos o conselho de classe, avaliamos todo o trabalho com o aluno durante o ano, e caso mantenhamos algum aluno no mesmo ano ciclo somos alvo de uma varredura que vem de cima.
A questão não é só o desrespeito com o trabalho da escola em seu dia a dia. O maior problema é que tal postura não demonstra nenhum grau de preocupação qualitativa. Tenho alunos em C30, que seria a antiga oitava série, analfabetos funcionais ou que não manejam as operações matemáticas básicas. Como estes alunos são avançados desde os primeiros anos ciclos, suas defasagens se acumulam, fazendo-os chegar em estados deprimentes no fim do ensino fundamental. A não manutenção de um aluno com defasagens só se justificaria se houvesse um trabalho de suporte que as sanassem. Mas na prática não é o que acontece. Nem um psicopedagogo é disponibilizado para análises do quadro de alunos que enfrentam problemas de aprendizagem possivelmente por seu contexto familiar. Professores que precisam de licença médica não são substituídos a tempo, prejudicando todo o processo de aprendizagem que os alunos tem pela frente. Temos um caso emblemático: o professor de C10 se ausentou por motivos médicos, e ausente ficaram suas aulas por mais ou menos 3 ou quatro meses, quase a metade do ano letivo. Nesse caso, adianta manter todos os alunos? É óbvio qu eles não adquiriram o conhecimento necessário para avançar, como também o é que a culpa não é deles. Onde está o suporte dado pela mantenedora a estes alunos? Como os professores dos anos subsequentes poderão sanar as lacunas que ficaram? Quantas lacunas não permanecem advindas de situações semelhantes?
Desculpe-me a extensão do texto, mas há que se falar. A maneira como a Smed lida com a educação se equipara a administração de cadeias: contenção social de possíveis problemas. Crianças não ficarão nas ruas, coloquemos nas escolas. Ali, a função é mantê-las dentro até o ponto em que se pode, mas nunca comprometendo o orçamento, são nove anos para cada uma e depois deixe que a vida se encarregue. Que saiam menos letrados, pois nem todas as profissões do mundo precisam de conhecimento. E os professores que não tentem fazer algo diferenciado pensando em qualidade, pois cortaremos qualquer iniciativa assim no fim do ano, atropelando os coneselhos de classe feito pelos ingênuos professores.
Dada que esta é minha versão dos fatos, reitero o pedido para uma investigação jornalística que possa encontrar a justa medida entre a política educacional pretensamente desenvolvida pela Prefeitura e a realidade vivenciada nas escolas. É um trabalho que talvez possa tornar o futuro mais encorajador, onde pessoas que se formam criticamente saiam das escolas para o mundo e o transformem de fato para algo melhor. Infelizmente, não é o que acontece hoje.
Grato pela atenção dispensada,
Marco Aurélio Fabretti
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Da necessidade do amor, ou Carta de irmão mais velho para irmã mais nova
Amor não se dá em palavras, vícios ou lisonjeios. Tampouco em árvores comuns, destas que vemos a esmo. Amor é coisa rara em tempos de perdição – perdemos muito facilmente dons, laços, rumos e tempos. Acho, no fundo, que o amor é um achar-se, em si e no outro. Achar em mim o que é bondade inerente, no outro a bondade a construir. Amor, é, no fim das contas, construção. Não construção espelhada, mas concomitante. Ela não combina com trabalhos forçados, está mais para criação artística: necessária e livre. Veja bem, não é toda coisa no mundo que se dá o luxo de ser enquadrada nesse binômio. Ser necessariamente livre é o pesadelo sartreano às fracas almas – quem de nós é suficientemente forte?
A existência é dura, confessemos. Amar a amolece, é por isso que amamos. Amamos os pássaros, as ruas, as lembranças e nós mesmos. Amamos cada um de nossos momentos como tentativa natural de fugir à angústia do não saber. Porque amar é um saber profundo, daqueles que não se explica, e contrapõe-se à ignorância que nos é latente. Talvez seja a única forma de fuga, quem sabe?
Amar é viver de amor, é não cair no desamor ou nas inquietudes da própria alma. Amar é degustar tais inquietudes como remédio amargo ou com faro de cientista. Porque talvez, somente talvez, o amor se dê sim em palavras, vícios, lisonjeios ou árvores. Amor somos nós em relação ao mundo. Nenhuma paixonite ou sentimento de perda se equipara a isto. Seria chamar Zeus de faísca, Jeová de escuridão, medo de carinho. Amor é estar em consonância com seu próprio tempo, e isto é tudo o mais que se pode querer. Para que remar contra a corrente, se a direção é uma só? Por que olhar cabisbaixo para o fundo da canoa, quando o rio convida a banhar-se?
O tempo nosso é um só. O dos outros, estes se encontram na grandessíssima categoria do desimportante. Só aquele que valoriza o essencial pode chegar a ver algum brilho no secundário, dar de si para que seja algo. Amá-lo, resumindo. Sem o essencial, no entanto, é falso ouro tudo que se vê, e nosso tempo escorre entre dedos. Que se aprenda a amar, portanto. Esta é a única lei que todo ser humano deveria se impor.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
12 horas
- Seis da manhã, acordo e lembro que é meu dia de folga. Lembro também que marquei (por livre e espontânea vontade) uma ida à escola atender um orientando. Me amaldiçoo a primeira vez no dia.
- Sete da manhã, finalmente exorcizo as mandingas brabas que me prendiam à cama, vou ao banho e ao café, o dia tá bonito e a Restinga é logo ali. A Poliana toma conta.
- Oito e vinte, entrada da segunda aula, chego à escola e vou atrás do meu caro aluno. Faltou à aula mesmo sabendo que faríamos o término do seu projeto - ou porque o faríamos. Lembro dos 50 minutos no ônibus e me amaldiçoo pela segunda vez.
- Oito e meia, se não tem tu vai tu mesmo. Estando na escola, tamu ae na atividade. Abri o note e comecei a gravar os dvds atrasados para os alunos que perderam um filme que passei. Fiz uma lista de coisas a fazer no dia: armar o passeio das c30s, armar a rifa, passar material para a SIR atender a Aline, fazer cópias de uma apostila de geografia para o cursinho, aprender como ministrar essa aula, dar essa aula às cinco, separar a apostila e organizá - la (ah, como eu queria uma máquina com classificador... e ah, sim, eu sou quase um perito em fotocópias) e, por fim, corrigir as provas finais sobre tabela verdade das C30.
- Nove horas, passo de sala em sala avisando que o cursinho vai ocorrer às sextas também, pois mais professores toparam o voluntariado. Retiro um dos amaldiçoamentos anteriores, estou feliz.
- Nove e quarenta e cinco, assumo o lugar da Pri na aplicação da prova dela para que ela possa trabalhar nas inscrições das oficinas referentes à semana da consciência negra. Fecho a porta da sala e recebo a primeira reclamação do tipo "até agora tava aberta"; respondo "agora não tá mais"; retrucam "professor chato"; confirmo "muito chato".
- Dez horas, é intervalo. Bato um rango, um papo e deixo a apostila para fotocópia.
- Dez e meia, apostilas copiando, dvds gravados, sentamos eu e o Joaquim para separar material de matemática e fazer um horário para os alunos. A mesa da sala dos professores começa a se assemelhar com a minha mesa do quarto: zona de guerra.
- Onze horas, começo a mexer com as apostilas.
- Meio dia, é almoço, hora de ir embora. "Ops, dessa vez eu fico", ir embora e chegar às duas em casa para voltar às quatro e chegar às cinco para o cursinho nem rola. "Permanecerei no meu dia de folga na escola" - isso soou, bem no fundo, como a terceira maldição, transformada em segunda pela anulação da anterior supracitada nestes autos.
- Meio dia e meio, vou almoçar no Parada 10. Poderia até comer ali na escola, mas já tava estafado da coisa. O lance era arejar a cabeça dando uma caminhada.
- Meio dia e meio e mais uns tantos, ligo para a Lígia para aporrinhá-la e incentivá-la a beber, sem moderação... porque irmão mais velho é pra isso ae, fraga?
- Uma e meia, retomo as apostilas, a sala dos professores à tarde é bem sussegada. Coloco com meta terminar até às três da tarde. Já sei que preciso preparar a aula, e isso implica em não fazer o material da Aline, não armar a rifa e o passeio e nem passar perto das provas a serem corrigidas.
- Duas e meia, a sala dos professores tá lotada de aluninhos fazendo prova na minha ilustre presença. É de matemática, tem um chará meu entre eles: "velho, representa bem a parada ae, honra o nome". Uma aluna que sentou-se do outro lado da mesa, à minha frente, recebe uma ralhada da professora: "você faltou 47 dias, é claro que não sabe como fazer". Acho cruel, mas na Restinga é assim.
- Duas e quarenta e cinco, a menina à frente finge que está fazendo os exercícios. Ela olha a tabuada, não vê nada. Vira a tabuada de trás pra frente, continua não vendo nada. Ela me vê observando e sorri sorrateira. Eu continuo sério, afinal sou professor e é prova. Mas sorrio por dentro. Ah, o Marco ao meu lado abandonou a prova, e foi encaminhado à coordenação... ferro a representação.
- Duas e meia, a sala dos professores tá lotada de aluninhos fazendo prova na minha ilustre presença. É de matemática, tem um chará meu entre eles: "velho, representa bem a parada ae, honra o nome". Uma aluna que sentou-se do outro lado da mesa, à minha frente, recebe uma ralhada da professora: "você faltou 47 dias, é claro que não sabe como fazer". Acho cruel, mas na Restinga é assim.
- Duas e quarenta e cinco, a menina à frente finge que está fazendo os exercícios. Ela olha a tabuada, não vê nada. Vira a tabuada de trás pra frente, continua não vendo nada. Ela me vê observando e sorri sorrateira. Eu continuo sério, afinal sou professor e é prova. Mas sorrio por dentro. Ah, o Marco ao meu lado abandonou a prova, e foi encaminhado à coordenação... ferro a representação.
- Três horas, dou conta da parada e consigo livros de ciências que seriam doados pela biblioteca. Tem alguns de geografia também, então já usurpo e começo a trampar.
- Quatro horas, cinco páginas escritas com esquemas de três materiais diferentes. Até então já redescobrira o que é Greenwich, meridiano, paralelo, que a rotação da Terra leva 23 horas, 54 minutos e alguns segundos, que a translação leva 365 dias, 5 horas e 48 minutos, que a forma do planeta é geóide, que o pólo norte geográfico é distante 1400 km do polo magnético, que paisagem, lugar e espaço são conceitos diferentes, mas integrados.
- Cinco horas, vou atrás de um globo. Equinócios e solstícios são conceitos muito graves para uma simples descrição falada. Preciso de algo palpável, e o Sol eu improviso na hora.
- Cinco e cinco, faltam dez minutos e a galerinha tá chegando. Me veem, mas eu to sussa estirado no sofá. Só saio dali depois de um café e um relax de dez minutos.
- Cinco e quinze, vou ruma ao desconhecido. Começa minha primeira aula de geografia na vida.
- Seis e quarenta e cinco, o combinado era parar por ae. Mas quarta não tem aula à noite, e a molecada topa ficar até terminar o conteúdo.
- Oito, eles foram embora, a sala está fechada e eu to vazando. Ou "tava" vazando. O Joaquim me intima para divir com o grupo da Eja o pró-eja da escola técnica. Começo a ler Sêneca para matar o tempo.
- Oito e meia, agora sim to vazando, irmãos! Opa, me disseram que não é muito bom sair sozinho naquele horário. Descolo uma carona.
- Oito e quarenta e cinco, o Walter grita meu nome no pátio e eu corro do bar onde filava um bolinho de aniversário de dois real e um suco para pegar a carona... "o gordinho tá comendo, pô", alerto.
- Dez horas, tombado na cama. Num estado de quase morte, esse que a Karen adora. Amanhã, meu pexe, começaria tudo de novo. Tamu ae.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
Bienal
No cubo escuro, chorei, e então todas as palavras fizeram sentido.
E tudo o mais.
Bocas de ceniza - Juan Manuel Echavarría from Otro on Vimeo.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Saudade
Se a saudade fosse mensurável, não seria enorme. Enorme é coisa de gigantes, estou me apequenando às realidades rotineiras de uma vida cotidiana. A saudade é riacho que corre bem ali, ao lado, escondido no mato, que você escuta mas não vê. Não precisa ser riacho grande não.
A saudade é folha de outono que cai sobre a face num dia deitado sob a sombra escutando farfalhares, num momento não está e noutro já sempre estivera. E folhas são apequenadas, veja bem. Mas tocam com textura única o ar que as embala na queda.
Saudade, seu moço, é estar presente onde já não há presença, é presenciar momentos em relances do olho, é olhar a estrada incógnita e notar a vermelhidão da terra que é vermelha porque outra terra o é. Saudade é um estar não estando, sempre melhor que um não estar compartilhado.
Saudade é olho da moça, carinho de mãe, abraço de pai, beijo de irmã. Saudade é pé no chão na grama e na terra, é pé de manga e de pinha, acerola e ipê. Saudade é apequenada por necessidade: nada maior do que devia pode ser belo ou algo que valha. A saudade é um bom vinho tinto, sorvido lenta e agudamente.
Ah, amigo, a saudade está é dentro da gente. E a graça toda é não termos sobre ela nada mais do que a caprichosa capacidade de observar. Sodades.
Ah, amigo, a saudade está é dentro da gente. E a graça toda é não termos sobre ela nada mais do que a caprichosa capacidade de observar. Sodades.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Meio morno
O som das ruas não é sujo o suficiente
A chibata não dói aguda nas costas
O ralo emite fragrâncias relativamente doces.
As paredes não ofendem em suas brancuras
O ar se respira
Há pássaros que cantam na madrugada e além.
Vemos verdade e mentiras nos olhos das moças
Mas isso sempre foi e sempre será assim,
daí o mundo não se torna melhor ou pior.
Há verdades não ditas naquelas mentiras, a moça
E mentiras dissimuladas naquelas verdades, o moço.
O som da rua continua percorrendo os becos a não encontrar
a sujeira de que precisa.
domingo, 25 de setembro de 2011
meio de algo que nada é
A água
tremeluzia, de leve, beirando o capim verde que se estendia por um longo campo.
Pequenos arbustos salpicavam-lhe, espaçados por uma distância de quatro ou
cinco metros. Da beira do lago o máximo que se via, a casa abastada pequena,
acompanhada de pequeninas casas filhas não tão abastadas. Uma fumaça fina subia
em direção ao céu azul, misturando-se com as nuvens que baixeavam naquelas
bandas, e lhe contrastava os três morros de um verde capim, como aquele mesmo
que sentia-se sob os pés. A planície que separava a casa grande do lago era
satisfatoriamente tocada pelo vento – havia quase que um convite por parar por
ali, aquele campo fresco, o rumo perdido, a finalidade sobreposta pelo deixar
ser. O sol ameno, focando em refletir-se todo no lago, deixava mais ameno a
parte gramada, o que era boa coisa.
Ao longo da
estrada, crianças brincavam de cavucar a terra; seus carrinhos faziam
peripécias em meio aos montes urais do cerrado – volta e voltas no ar. Do lado
de baixo, o milho que começava a pender, alguns colhidos pelo Armando para o
jantar próximo. As casas se aproximaram depressa:
- Ô de
casa...
- êpa...
minutin.. chama o pai, que é gente de fora...
- Arre.
Veio
aquele que mais tarde chamaria por Zé Magro, dono ali do capinzal todo. Sujeito
alto, tez morena, bigode amansado e olhos fortes. “Arre” – perguntou. Zé Tonho
deu resposta: “Sinhô não se aperreie, satisfação que devo pro dono destas
terras de meu cumpadre... modo de que acampamos na estirada, pousar noite...”....
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