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terça-feira, 6 de novembro de 2012

E assim caminha minha sexta série...



Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco"
e os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite,
uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante,
desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então! 



Pablo Neruda

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Procura-se assassino

As autoridades procuram desde ontem assassino não confesso nas imediações das escolas do bairro. A família da alvejada, dona Curiosidade, prestou queixa nos altos tribunais criativos do Ministério das Utopias e Sonhos Distantes na tarde de ontem. Relatou a família que se tratou de morte premeditada e executada em pequenas doses. “Não descarta-se autoria coletiva”, afirmou o delegado do caso, Dr. Sócrates da Silva. O suspeito tem entre vinte e sessenta anos, de sexo indefinido, sabida inteligência (devidamente dogmatizada), hábitos incólumes e refratário a trabalhos árduos. Seus métodos foram estabelecidos já no início da investigação. Opera através do tédio, da acomodação e da resignação. Críticas à estrutura e apontamentos pontuais sobre impossibilidades foram encontradas jogadas num beco sem saída, e aparentemente são as armas do crime. O local do fatídico acontecimento é indefinido, mas há relatos de civis apontando para os jardins e floriculturas da cidade. “Fato que nos leva a seguir tal indício é o clima de medo e consternação apresentado pelas flores de alguns estabelecimentos”, esclareceu o investigador Antônio Ombros Largos. Nossa equipe levantou que flores de várias idades demonstram transtornos decorrentes do assassinato, desde comportamentos considerados impróprios à apatia nos momentos de desabroche. A investigação prosseguirá nas próximas semanas em sigilo de justiça, conforme determinado pelo Excelentíssimo Juiz de Primeira Instância da Ordem dos Formadores de Opinião e Cerceamento de Pensamento, Dr. Não Sei Eu de Nada. O Ministério do Interesse Público avalia entrar com uma petição para derrubar a medida, mas especialistas avaliam como difícil a reforma da decisão pelo Excelentíssimo Juiz de Segunda Instância, Dr. Não É Comigo. Aguardaremos os próximos fatos.